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quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Desenhista retrata morte de jornalista russa

Desenhista retrata morte de jornalista russa

MARINA DARMAROS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE MOSCOU

Em 7 de outubro de 2006, durante a segunda guerra da Tchetchênia (1999-2009), Anna Politkovskaia, correspondente do jornal russo dissidente "Novaia Gazeta", foi assassinada, aos 48 anos, no elevador de seu prédio, em Moscou. Um dia depois, o desenhista italiano Igort escrevia, da França: "Uma luz apagada com quatro balas". O post em seu blog continha apenas uma frase e a foto de Anna. Durante quatro dias seguidos, o desenhista, nascido Igor Tuveri e criado numa casa "muito simpática à cultura russa", não pôde deixar de escrever sobre o evento. O interesse pelo assunto o levou a uma viagem de dois anos pelo país, a partir de 2009, cujo fruto é a graphic novel "Les Cahiers Russes: La Guerre Oubliée du Caucase" (cadernos russos: a guerra esquecida do Cáucaso; editora Futuropolis; 20 euros -cerca de R$ 45-, em média, na Amazon.fr), lançada em janeiro na França. "A Rússia é hoje um país amaldiçoado, onde a gente tem medo de falar sobre certos assuntos, finge não ver que alguns julgamentos, como o da morte de Politkovskaia, são grotescos", disse Igort à Folha. Mais de cinco anos depois, o caso de Anna continua sem solução. Profundamente tocada pelos horrores da Tchetchênia, a jornalista não fazia apenas seu trabalho, e esse era um dos motivos pelos quais incomodava tanto, segundo sua amiga e tradutora Galia Ackerman, também retratada por Igort. "Ela era uma defensora dos direitos humanos", conta Galia. Além de refazer o percurso de Anna no dia de sua morte, Igort reconta episódios de injustiças contra o povo caucasiano relatados por ela. Um deles é o do massacre na escola de Beslan, quando terroristas fecharam uma escola na Ossétia do Norte, em 2004, exigindo a retirada das tropas russas da Tchetchênia. Mal coordenada pelas forças russas, a ação resultou em até 380 mortes. "Cadernos Russos" não foi uma estreia. Casado com uma ucraniana e falando um pouco de russo, Igort já havia publicado, pela mesma coleção da editora Futuropolis, os "Cadernos Ucranianos", sobre a grande fome provocada por Stálin que matou 6 milhões no país nos anos 1930. "Com o desenho você pode facilmente recriar qualquer coisa, é tudo por sua conta e de seu talento", diz. Já publicado na Itália desde o ano passado e com uma tiragem inicial de 6 mil cópias na França, as expectativas de venda do novo livro são grandes. Segundo a porta-voz da Futuropolis, Elise Rouyer, isso se dá principalmente devido ao sucesso do "Cadernos Ucranianos", publicado em sete países europeus. No formato de um diário de viagem, a história contada por Igort está repleta de episódios da "democratura" russa, como é chamado por cientistas políticos ocidentais o sistema do país -ou seja, uma ditadura disfarçada. "Eu vi soldados mutilados em São Petersburgo, implorando por alguns rublos, e isso diz muito. A Rússia é um país em guerra, mas a gente prefere não ver isso. Se existe um legado do trabalho da Anna, esse é importantíssimo", arremata Igort.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Morre Tàpies

Morre o pintor espanhol Antoni Tàpies, 88

FABIO CYPRIANO
CRÍTICO DA FOLHA

O pintor espanhol Antoni Tàpies morreu ontem, aos 88 anos, em Barcelona, cidade onde nascera no dia 13 de dezembro de 1923. O artista foi um dos nomes representativos da arte abstrata do pós-Guerra. Autodidata, Tàpies, que abandonou o estudo do direito para se dedicar à arte, admitia ter tido grande influência de Joan Miró, Paul Klee e Max Ernst. Sua principal marca, contudo, foi tornar-se um dos expoentes da "pintura matérica", assim chamada por conter densas camadas de tinta. O catalão chegou a ser amigo do poeta e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999), que serviu em Barcelona e teria lhe presenteado livros marxistas, então proibidos na Espanha. Em 1953, na segunda Bienal de São Paulo, a pintura "Ásia", que hoje pertence ao Museu de Arte Contemporânea da USP, concedeu a Tàpies o prêmio aquisição. O artista criou, em 1984, a Fundação Tàpies, dedicada à promoção e estudo da arte moderna e contemporânea, em Barcelona, que se tornou um dos principais centro de arte da Europa. As mostras que colocaram Lygia Clark e Hélio Oiticica como figuras-chave da arte no século 20, por exemplo, ocorreram lá, respectivamente, em 1997 e em 1992. Não foi divulgada a causa da morte do artista, mas sabe-se se que sua saúde era frágil há muito tempo. Por isso, ele não esteve no Brasil, em 2004, quando foi tema de uma retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, com curadoria de Fábio Magalhães e, no ano seguinte, nas filiais do Rio e de Brasília da instituição. Casado com Teresa Barba Fábregas, Tàpies era pai de Antoni, Clara e Miquel.

domingo, fevereiro 05, 2012

Mona Lisa e o caos - Hélio Schwartsman

HÉLIO SCHWARTSMAN

Mona Lisa e o caos

DE SÃO PAULO - Pesquisadores anunciaram que a cópia da Mona Lisa encontrada no Museu do Prado é quase tão autêntica quanto o original. Isso dá o que pensar. O que torna a Gioconda o quadro mais célebre do mundo? E a resposta, que relutamos em aceitar, é: sua celebridade.

Não há dúvida de que Da Vinci era bom e Mona Lisa é uma grande pintura. Mas, tecnicamente, ela está no mesmo nível de outros trabalhos do polímata toscano e de outros grandes mestres. Por que ela, e não La Fornarina, de Rafael, por exemplo, se tornou o ícone da arte pictórica?

A rigor, até meados do século 19, Da Vinci não era páreo para Ticiano, Rafael, e a Mona Lisa era um quadro relativamente obscuro. Sua fortuna começa a mudar depois que foi roubada do Louvre por um italiano em 1911. Acabou sendo devolvida, já como celebridade. Sofreria dois outros "atentados" e se tornaria objeto de paródia de autores pop como Duchamp, Dalí e Warhol. Hoje, o Louvre estima que 80% de seus visitantes vão ao museu primariamente para ver a Gioconda, segurada em US$ 700 milhões.

A tese do físico Duncan Watts é que o sucesso é circular: a fama do quadro advém de sua fama, que foi precipitada por eventos aleatórios.

O interessante é que Watts tem um experimento para corroborar sua teoria. Ele recrutou 14 mil voluntários que deveriam escutar, avaliar e baixar 48 músicas inéditas de bandas desconhecidas. Os recrutas foram divididos em oito "mundos" incomunicáveis, onde podiam conferir a popularidade da canção pelo número de downloads naquele mundo.

Cada mundo evoluiu de modo independente. O que mais pesou foi a fama. A qualidade importou, mas pouco. Músicas muito bem avaliadas nunca foram um desastre, mas, com as canções médias, tudo podia acontecer. Elas podiam estourar ou ser esquecidas. Quem mandava era o caos.

Isso deveria bastar para relativizar as explicações usuais para coisas como sucesso, fracasso e o próprio gênio.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

A nova Mona Lisa no Museu do Prado



Museu do Prado anuncia descoberta de cópia da "Mona Lisa". (Folha de São Paulo)

O museu espanhol do Prado anunciou nesta quarta (1º) a descoberta de uma cópia da "Mona Lisa", de Leonardo da Vinci, encontrada em seus depósitos. A instituição apresentou à imprensa a pintura, que esteve abandonada por décadas em um sótão, depois de sua restauração. De acordo com um relatório sobre os detalhes descobertos pelos especialistas, publicado na revista britânica "The Art Newspaper", o trabalho é uma cópia da pintura de Da Vinci realizado por algum de seus alunos ao mesmo tempo que o retrato original (1503-1506), no ateliê do artista italiano. Acredita-se, segundo o jornal "El País", que o tal aluno possa ter sido Andrea Salai (que se tornou um dos amantes de Da Vinci) ou Francesco Melzi. A pintura retrata a mesma mulher pintada por Da Vinci, mais jovem e com o rosto mais fresco, mas com a mesma pose e o mesmo sorriso enigmático. O fundo, porém, estava completamente preto, coberto por várias camadas de tinta escura, que foram removidas por especialistas cuidadosamente. A versão restaurada mostra no fundo uma paisagem de colinas e rios que muito se parece com a pintura original, atualmente no Museu do Louvre, em Paris. A publicação acrescentou que a descoberta ajudará a entender como a obra-prima de Leonardo foi pintada. O texto nota, ainda, que o aspecto um pouco mais envelhecido da mulher representada no célebre quadro pode ser resultado da ação do verniz na tela. "Esta descoberta sensacional vai transformar a nossa compreensão da mais famosa pintura do mundo", apontou a publicação. O museu confirmou as informações da imprensa e se comprometeu a oferecer maiores detalhes em breve.


segunda-feira, janeiro 30, 2012

Parece arte contemporânea



PF prende dois tentando postar cocaína dentro de santa

DE SÃO PAULO

Dois estrangeiros foram presos na tarde desta sexta-feira em Suzano (Grande São Paulo) tentando enviar pelo correio uma santa recheada de cocaína. De acordo com a Polícia Federal, um um nigeriano e um surinamês foram a uma agência dos Correios e pediram para enviar para a Irlanda uma imagem de Nossa Senhora do Carmo. Um deles foi reconhecido pelos funcionários da agência devido a investigações anteriores da PF, que apuravam tráfico de drogas pelo correio. Os funcionários acionaram a Polícia Militar, que deteve os suspeitos e os encaminhou para a sede da PF em São Paulo, na Lapa. Dentro da estátua, os policiais encontraram a droga, que ainda não foi pesada. Os presos responderão pelo crime de tráfico internacional de entorpecentes, cuja pena varia de 5 a 15 anos de prisão. A reportagem não conseguiu localizar os advogados dos estrangeiros.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

David Hockney - por Kenneth Maxwell

Kenneth Maxwell

David Hockney

Em janeiro, David Hockney recebeu a Ordem do Mérito britânica. Estabelecida pelo rei Eduardo 7º em 1902, a honraria premia feitos nas artes, nas ciências e no aprendizado. Apenas 24 pessoas receberam a comenda até hoje, entre as quais Margaret Thatcher. Rudyard Kipling e George Bernard Shaw recusaram a homenagem. Hockney havia recusado anteriormente a sagração como cavaleiro, bem como um convite para pintar a rainha.

Neste fim de semana, uma grande exposição de seu trabalho recente, "A Bigger Picture", será aberta na Royal Academy de Londres. Os ingressos já estão esgotados até o final de fevereiro. Hockney, 74, vem sendo descrito como "o maior artista britânico vivo" desde a morte do pintor Lucian Freud, no ano passado. Nascido em Bradford, Yorkshire, em 1937, Hockney foi um dos principais expoentes da arte pop dos anos 60. Desde o começo, foi franco e controverso. Continua a defender os direitos dos fumantes. E é aberta e triunfantemente gay.

Seus primeiros quadros celebravam seu amor por homens. "We Two Boys Clinging", de 1961, dizia tudo. Em 1971, ele fez um desenho maravilhoso de Richard Neville, Felix Dennis e Jim Anderson, editores da revista hippy "OZ", que estavam sendo acusados de obscenidade. O desenho os mostrava sentados, completamente nus, e foi leiloado para arrecadar dinheiro para sua defesa. Os três receberam sentenças draconianas, e o caso desgastou seriamente a credibilidade do sistema judicial britânico e expôs grande corrupção na polícia metropolitana londrina.

Em 1961, Hockney visitou Nova York pela primeira vez. William Lieberman, curador do Museu de Arte Moderna (MoMA), comprou duas de suas gravuras. Em 1963, foi apresentado a Andy Warhol e Dennis Hopper. Também conheceu Henry Geldzahler, curador de arte do século 20 no Metropolitan Museum e defensor dos jovens talentos. Pouco depois, Hockney começou seu longo caso de amor com Los Angeles e o sul da Califórnia. Lá se apaixonou por um jovem e belo californiano loiro, Peter Schlesinger, e pintou uma série de vibrantes paisagens, piscinas e seus muitos amigos, entre os quais Christopher Isherwood e Don Bachardy.

Sete anos atrás, Hockney voltou a East Yorkshire, e foi morar perto de Bridlington. Sua exposição na Royal Academy inclui 150 peças, a maioria das quais paisagens campestres de Yorkshire, muitas produto de seu entusiasmo recente pelo iPad. Os críticos rejeitam sua retomada da pintura de paisagens. O público, como sempre, o ama.

Tradução de Paulo Migliacci.