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quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Desenhista retrata morte de jornalista russa

Desenhista retrata morte de jornalista russa

MARINA DARMAROS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE MOSCOU

Em 7 de outubro de 2006, durante a segunda guerra da Tchetchênia (1999-2009), Anna Politkovskaia, correspondente do jornal russo dissidente "Novaia Gazeta", foi assassinada, aos 48 anos, no elevador de seu prédio, em Moscou. Um dia depois, o desenhista italiano Igort escrevia, da França: "Uma luz apagada com quatro balas". O post em seu blog continha apenas uma frase e a foto de Anna. Durante quatro dias seguidos, o desenhista, nascido Igor Tuveri e criado numa casa "muito simpática à cultura russa", não pôde deixar de escrever sobre o evento. O interesse pelo assunto o levou a uma viagem de dois anos pelo país, a partir de 2009, cujo fruto é a graphic novel "Les Cahiers Russes: La Guerre Oubliée du Caucase" (cadernos russos: a guerra esquecida do Cáucaso; editora Futuropolis; 20 euros -cerca de R$ 45-, em média, na Amazon.fr), lançada em janeiro na França. "A Rússia é hoje um país amaldiçoado, onde a gente tem medo de falar sobre certos assuntos, finge não ver que alguns julgamentos, como o da morte de Politkovskaia, são grotescos", disse Igort à Folha. Mais de cinco anos depois, o caso de Anna continua sem solução. Profundamente tocada pelos horrores da Tchetchênia, a jornalista não fazia apenas seu trabalho, e esse era um dos motivos pelos quais incomodava tanto, segundo sua amiga e tradutora Galia Ackerman, também retratada por Igort. "Ela era uma defensora dos direitos humanos", conta Galia. Além de refazer o percurso de Anna no dia de sua morte, Igort reconta episódios de injustiças contra o povo caucasiano relatados por ela. Um deles é o do massacre na escola de Beslan, quando terroristas fecharam uma escola na Ossétia do Norte, em 2004, exigindo a retirada das tropas russas da Tchetchênia. Mal coordenada pelas forças russas, a ação resultou em até 380 mortes. "Cadernos Russos" não foi uma estreia. Casado com uma ucraniana e falando um pouco de russo, Igort já havia publicado, pela mesma coleção da editora Futuropolis, os "Cadernos Ucranianos", sobre a grande fome provocada por Stálin que matou 6 milhões no país nos anos 1930. "Com o desenho você pode facilmente recriar qualquer coisa, é tudo por sua conta e de seu talento", diz. Já publicado na Itália desde o ano passado e com uma tiragem inicial de 6 mil cópias na França, as expectativas de venda do novo livro são grandes. Segundo a porta-voz da Futuropolis, Elise Rouyer, isso se dá principalmente devido ao sucesso do "Cadernos Ucranianos", publicado em sete países europeus. No formato de um diário de viagem, a história contada por Igort está repleta de episódios da "democratura" russa, como é chamado por cientistas políticos ocidentais o sistema do país -ou seja, uma ditadura disfarçada. "Eu vi soldados mutilados em São Petersburgo, implorando por alguns rublos, e isso diz muito. A Rússia é um país em guerra, mas a gente prefere não ver isso. Se existe um legado do trabalho da Anna, esse é importantíssimo", arremata Igort.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Morre Tàpies

Morre o pintor espanhol Antoni Tàpies, 88

FABIO CYPRIANO
CRÍTICO DA FOLHA

O pintor espanhol Antoni Tàpies morreu ontem, aos 88 anos, em Barcelona, cidade onde nascera no dia 13 de dezembro de 1923. O artista foi um dos nomes representativos da arte abstrata do pós-Guerra. Autodidata, Tàpies, que abandonou o estudo do direito para se dedicar à arte, admitia ter tido grande influência de Joan Miró, Paul Klee e Max Ernst. Sua principal marca, contudo, foi tornar-se um dos expoentes da "pintura matérica", assim chamada por conter densas camadas de tinta. O catalão chegou a ser amigo do poeta e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999), que serviu em Barcelona e teria lhe presenteado livros marxistas, então proibidos na Espanha. Em 1953, na segunda Bienal de São Paulo, a pintura "Ásia", que hoje pertence ao Museu de Arte Contemporânea da USP, concedeu a Tàpies o prêmio aquisição. O artista criou, em 1984, a Fundação Tàpies, dedicada à promoção e estudo da arte moderna e contemporânea, em Barcelona, que se tornou um dos principais centro de arte da Europa. As mostras que colocaram Lygia Clark e Hélio Oiticica como figuras-chave da arte no século 20, por exemplo, ocorreram lá, respectivamente, em 1997 e em 1992. Não foi divulgada a causa da morte do artista, mas sabe-se se que sua saúde era frágil há muito tempo. Por isso, ele não esteve no Brasil, em 2004, quando foi tema de uma retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, com curadoria de Fábio Magalhães e, no ano seguinte, nas filiais do Rio e de Brasília da instituição. Casado com Teresa Barba Fábregas, Tàpies era pai de Antoni, Clara e Miquel.

domingo, fevereiro 05, 2012

Mona Lisa e o caos - Hélio Schwartsman

HÉLIO SCHWARTSMAN

Mona Lisa e o caos

DE SÃO PAULO - Pesquisadores anunciaram que a cópia da Mona Lisa encontrada no Museu do Prado é quase tão autêntica quanto o original. Isso dá o que pensar. O que torna a Gioconda o quadro mais célebre do mundo? E a resposta, que relutamos em aceitar, é: sua celebridade.

Não há dúvida de que Da Vinci era bom e Mona Lisa é uma grande pintura. Mas, tecnicamente, ela está no mesmo nível de outros trabalhos do polímata toscano e de outros grandes mestres. Por que ela, e não La Fornarina, de Rafael, por exemplo, se tornou o ícone da arte pictórica?

A rigor, até meados do século 19, Da Vinci não era páreo para Ticiano, Rafael, e a Mona Lisa era um quadro relativamente obscuro. Sua fortuna começa a mudar depois que foi roubada do Louvre por um italiano em 1911. Acabou sendo devolvida, já como celebridade. Sofreria dois outros "atentados" e se tornaria objeto de paródia de autores pop como Duchamp, Dalí e Warhol. Hoje, o Louvre estima que 80% de seus visitantes vão ao museu primariamente para ver a Gioconda, segurada em US$ 700 milhões.

A tese do físico Duncan Watts é que o sucesso é circular: a fama do quadro advém de sua fama, que foi precipitada por eventos aleatórios.

O interessante é que Watts tem um experimento para corroborar sua teoria. Ele recrutou 14 mil voluntários que deveriam escutar, avaliar e baixar 48 músicas inéditas de bandas desconhecidas. Os recrutas foram divididos em oito "mundos" incomunicáveis, onde podiam conferir a popularidade da canção pelo número de downloads naquele mundo.

Cada mundo evoluiu de modo independente. O que mais pesou foi a fama. A qualidade importou, mas pouco. Músicas muito bem avaliadas nunca foram um desastre, mas, com as canções médias, tudo podia acontecer. Elas podiam estourar ou ser esquecidas. Quem mandava era o caos.

Isso deveria bastar para relativizar as explicações usuais para coisas como sucesso, fracasso e o próprio gênio.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

A nova Mona Lisa no Museu do Prado



Museu do Prado anuncia descoberta de cópia da "Mona Lisa". (Folha de São Paulo)

O museu espanhol do Prado anunciou nesta quarta (1º) a descoberta de uma cópia da "Mona Lisa", de Leonardo da Vinci, encontrada em seus depósitos. A instituição apresentou à imprensa a pintura, que esteve abandonada por décadas em um sótão, depois de sua restauração. De acordo com um relatório sobre os detalhes descobertos pelos especialistas, publicado na revista britânica "The Art Newspaper", o trabalho é uma cópia da pintura de Da Vinci realizado por algum de seus alunos ao mesmo tempo que o retrato original (1503-1506), no ateliê do artista italiano. Acredita-se, segundo o jornal "El País", que o tal aluno possa ter sido Andrea Salai (que se tornou um dos amantes de Da Vinci) ou Francesco Melzi. A pintura retrata a mesma mulher pintada por Da Vinci, mais jovem e com o rosto mais fresco, mas com a mesma pose e o mesmo sorriso enigmático. O fundo, porém, estava completamente preto, coberto por várias camadas de tinta escura, que foram removidas por especialistas cuidadosamente. A versão restaurada mostra no fundo uma paisagem de colinas e rios que muito se parece com a pintura original, atualmente no Museu do Louvre, em Paris. A publicação acrescentou que a descoberta ajudará a entender como a obra-prima de Leonardo foi pintada. O texto nota, ainda, que o aspecto um pouco mais envelhecido da mulher representada no célebre quadro pode ser resultado da ação do verniz na tela. "Esta descoberta sensacional vai transformar a nossa compreensão da mais famosa pintura do mundo", apontou a publicação. O museu confirmou as informações da imprensa e se comprometeu a oferecer maiores detalhes em breve.


segunda-feira, janeiro 30, 2012

Parece arte contemporânea



PF prende dois tentando postar cocaína dentro de santa

DE SÃO PAULO

Dois estrangeiros foram presos na tarde desta sexta-feira em Suzano (Grande São Paulo) tentando enviar pelo correio uma santa recheada de cocaína. De acordo com a Polícia Federal, um um nigeriano e um surinamês foram a uma agência dos Correios e pediram para enviar para a Irlanda uma imagem de Nossa Senhora do Carmo. Um deles foi reconhecido pelos funcionários da agência devido a investigações anteriores da PF, que apuravam tráfico de drogas pelo correio. Os funcionários acionaram a Polícia Militar, que deteve os suspeitos e os encaminhou para a sede da PF em São Paulo, na Lapa. Dentro da estátua, os policiais encontraram a droga, que ainda não foi pesada. Os presos responderão pelo crime de tráfico internacional de entorpecentes, cuja pena varia de 5 a 15 anos de prisão. A reportagem não conseguiu localizar os advogados dos estrangeiros.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

David Hockney - por Kenneth Maxwell

Kenneth Maxwell

David Hockney

Em janeiro, David Hockney recebeu a Ordem do Mérito britânica. Estabelecida pelo rei Eduardo 7º em 1902, a honraria premia feitos nas artes, nas ciências e no aprendizado. Apenas 24 pessoas receberam a comenda até hoje, entre as quais Margaret Thatcher. Rudyard Kipling e George Bernard Shaw recusaram a homenagem. Hockney havia recusado anteriormente a sagração como cavaleiro, bem como um convite para pintar a rainha.

Neste fim de semana, uma grande exposição de seu trabalho recente, "A Bigger Picture", será aberta na Royal Academy de Londres. Os ingressos já estão esgotados até o final de fevereiro. Hockney, 74, vem sendo descrito como "o maior artista britânico vivo" desde a morte do pintor Lucian Freud, no ano passado. Nascido em Bradford, Yorkshire, em 1937, Hockney foi um dos principais expoentes da arte pop dos anos 60. Desde o começo, foi franco e controverso. Continua a defender os direitos dos fumantes. E é aberta e triunfantemente gay.

Seus primeiros quadros celebravam seu amor por homens. "We Two Boys Clinging", de 1961, dizia tudo. Em 1971, ele fez um desenho maravilhoso de Richard Neville, Felix Dennis e Jim Anderson, editores da revista hippy "OZ", que estavam sendo acusados de obscenidade. O desenho os mostrava sentados, completamente nus, e foi leiloado para arrecadar dinheiro para sua defesa. Os três receberam sentenças draconianas, e o caso desgastou seriamente a credibilidade do sistema judicial britânico e expôs grande corrupção na polícia metropolitana londrina.

Em 1961, Hockney visitou Nova York pela primeira vez. William Lieberman, curador do Museu de Arte Moderna (MoMA), comprou duas de suas gravuras. Em 1963, foi apresentado a Andy Warhol e Dennis Hopper. Também conheceu Henry Geldzahler, curador de arte do século 20 no Metropolitan Museum e defensor dos jovens talentos. Pouco depois, Hockney começou seu longo caso de amor com Los Angeles e o sul da Califórnia. Lá se apaixonou por um jovem e belo californiano loiro, Peter Schlesinger, e pintou uma série de vibrantes paisagens, piscinas e seus muitos amigos, entre os quais Christopher Isherwood e Don Bachardy.

Sete anos atrás, Hockney voltou a East Yorkshire, e foi morar perto de Bridlington. Sua exposição na Royal Academy inclui 150 peças, a maioria das quais paisagens campestres de Yorkshire, muitas produto de seu entusiasmo recente pelo iPad. Os críticos rejeitam sua retomada da pintura de paisagens. O público, como sempre, o ama.

Tradução de Paulo Migliacci.

sábado, setembro 03, 2011

O iconoclasta - Silas Martí - Folha de São Paulo


Em 1967, Nelson Leirner mandou um porco empalhado para um salão de arte em Brasília, e o bicho foi aceito pelos críticos como uma obra. Mais de 40 anos depois, o homem que se consagrou como iconoclasta da arte brasileira, com fama de apontar as bizarrices do meio em obras ácidas e irônicas, abre uma retrospectiva em São Paulo sem o malfadado animal. Enquanto o porco viaja para Bruxelas, onde será destaque no festival Europalia, deixa na Galeria de Arte do Sesi sua ausência sintomática, ressaltando os trabalhos que o próprio Leirner considera mais palatáveis ao mercado. "Minha obra continua crítica, mas a crítica não funciona mais", diz Leirner à Folha. "Ela foi engolida, a sociedade aprendeu a consumir o artista. Não tem como criticar sendo consumido. Todos nós viramos marca registrada." No caso, ele sabe que será sempre tachado de "irreverente, irônico e bem humorado". "Mas ninguém pensa que posso estar depri mido, que também tomo remédios todos os dias para dormir." Apesar da derrota do Corinthians no dia anterior à entrevista, Leirner não parecia triste. Ele está consciente e não esconde essa lucidez. "Tudo ficou pasteurizado, e eu tento alertar para isso no meu trabalho, como se dissesse: olhe, sinta", diz ele. "Só que nem eu mesmo sinto nada. Arte hoje é fabricada, tem que ter galeria, mercado e produzir, gerenciar, ser um pequeno industrial." Em 1966, Leirner fundou com Wesley Duke Lee e Geraldo de Barros uma galeria alternativa, a Rex, que tentava expor a insensatez programada do mercado de arte. Teve prejuízo retumbante e acabou com um "happening" em que as obras foram doadas a quem passasse pelo espaço. Agora, o artista conta que divide o que faz entre arte e hobby. Grande obra da mostra que abre na semana que vem, "Hobby" é um conjunto de 3.000 pequenos objetos fabricados por ele em momentos de tédio ou distração, noites vazias em quartos de hotel ou longos voos de avião.É mais uma estocada no seio da arte, meio que ele mesmo aprendeu a moldar a seu favor nos últimos 50 anos. No próximo dia 12, o Instituto Tomie Ohtake destaca essa experiência mostrando obras de Leirner ao lado de trabalhos de seus ex-alunos, como Leda Catunda, Iran do Espírito Santo e Dora Longo Bahia, todos hoje mais do que consagrados no mundinho.

NELSON LEIRNER

QUANDO abre 5/9, às 19h, no Sesi, e 12/9, às 20h, no Tomie Ohtake

ONDE Galeria de Arte do Sesi-SP (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/ 3146-7405) e Instituto Tomie Ohtake (av. Brig. Faria Lima, 201, tel. 0/xx/11/2245-1900

QUANTO grátis

segunda-feira, agosto 15, 2011

Itamaraty


A notícia já é quase velha nestes tempos de imediatismo. A notícia é do remoto dia de 4 de agosto, mas ainda interessa.
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04/08/2011 - 17h44 - Obras de arte adquiridas pelo Itamaraty - SILAS MARTÍ
Folha de São Paulo.
Obras de 16 artistas plásticos brasileiros entram agora para o acervo do Ministério das Relações Exteriores, num investimento total de R$ 150 mil. A compra anunciada hoje encerra um período de quase 30 anos em que o Itamaraty abandonou uma política regular de aquisições. De uma lista de 82 finalistas, antecipada no último sábado pela Folha, uma comissão de curadores brasileiros e estrangeiros escolheu obras em quatro categorias: trabalhos em papel, escultura, fotografia e pintura. Entram para o acervo do ministério obras em papel dos artistas Fabrício Lopez, Carla Chaim, Chiara Banfi e Jarbas Lopes. Entre as esculturas, os premiados são Carlito Carvalhosa, Ana Holck, Laís Myrrha e Galeno. Foram adquiridas também fotografias de Matheus Rocha Pitta, Estela Sokol, Ana Paula Albé e Arnaldo Pappalardo. Na categoria pintura, os selecionados são Marepe, Marcus André, Eduardo Srur e Katie van Scherpenberg. Integraram a comissão julgadora Maria Inez Rodriguez, do Museu Universitário de Arte Contemporânea, do México, Tanya Barson, da Tate Modern, em Londres, Alison Greene, do Museum of Fine Arts, de Houston, Martin Roth, diretor da coleção de artes de Dresden, e os brasileiros Guilherme Bueno, do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, e Rodrigo Moura, do Instituto Inhotim.
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Abaixo, imagens de quatro das obras adquiridas.
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Jarbas Lopes
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Fabricio Lopez
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Marcus André
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Carla Chaim

quarta-feira, julho 27, 2011

População de baixa renda consome arte em São Paulo


MARCIO AQUILES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Santos versus Peñarol, final da Libertadores no Pacaembu, zona oeste de São Paulo. Enquanto isso, no Bar do Zé Batidão, na Chácara Santana (zona sul), Rosilene da Costa Dorea, 38, lê seu poema "Intensidade".
Quem visse a camisa do Pelé autografada, em destaque na parede do bar, jamais imaginaria que, exatamente na hora do jogo, um sarau literário que acontece todas as quartas-feiras acolheria cerca de 300 pessoas assistindo à declamação.
"O Sarau da Cooperifa mudou a minha vida. Eu voltei a estudar e hoje escrevo poesia", diz Dorea.
As opções de acesso à cultura para a população de baixo poder aquisitivo espalham-se pela cidade por meio de eventos gratuitos, que desmistificam a ideia de que essas pessoas não consomem arte.
"Aqui era uma das zonas mais violentas de São Paulo. Estamos prestes a completar dez anos e hoje vem gente de toda parte para participar do nosso sarau", afirma o poeta e idealizador, Sérgio Vaz.
CINEMA EM PERUS
Outro exemplo de difusão cultural é a Comunidade Quilombaque, localizada em Perus (zona norte), bairro com alguns dos piores índices socioeconômicos da cidade.
A Quilombaque oferece cursos de música, artesanato, teatro e literatura, além de organizar festivais como o Mutirão Cultural na Quebrada e o Cinequilombo, promovidos em praça pública.
"Tem gente que sai daqui chorando, porque nunca tinha ido ao cinema", diz o coordenador do projeto, Clebio Ferreira de Souza, 26.
"Com o Cinequilombo, nós temos a ocupação da praça com arte, em vez de consumo de bebidas e drogas", afirma José Soró, 47.
RAP NO CENTRO
Já o ponto de cultura Periferia no Centro, localizado na Vila Buarque, organiza atividades como a Rinha dos MCs, o Sarau do Rap, o Suburbano no Centro e o Samba de Comunidade.
"Aqui não se vende bebida alcoólica, há um banheiro limpo, tem café. Tudo aquilo que nosso povo merece para ter o mínimo de dignidade", diz o músico Criolo, um dos organizadores da rinha - disputa de rappers com rimas improvisadas.
O vencedor da última disputa, Vinícius da Silva Maximino, 21, veio de Diadema, na Grande São Paulo, para participar do evento, que ocorre simultaneamente a oficinas de xadrez.
"Tem gente que fala: 'Puxa, eu odeio rap, mas gostei muito do xadrez'. Queremos que as pessoas levem algo de positivo para suas comunidades", completa Criolo.
Colaboraram LUCAS SAMPAIO, LUCIANO ABE e RAFAEL ZANATTO

domingo, maio 08, 2011

A arte é um ofício - Carlos Heitor Cony - FSP

CARLOS HEITOR CONY
A arte é um ofício 

ÀS VEZES perguntam sobre o que ando escrevendo. Para começar, não ando escrevendo. Quando sou obrigado a escrever, a primeira coisa que faço é não andar: fico parado diante do computador. Há que ganhar o leite das crianças e o meu próprio leite, nada mais do que isso.
Houve tempo em que cheguei a transar com roteiros, mas em ritmo amador, quebrando galhos aqui e ali, a pedido de produtores amigos.
Temos bons profissionais no gênero, gente escolada capaz de manter uma história por meses. Nunca foi o meu caso, meu estro curto e fatigado, embora roteiros de cinema e novelas tenham muitas vezes uma autoria coletiva. Nem sempre o autor é um Moisés que sobe a montanha, enfrenta a sarça ardente e volta com as tábuas da lei. Não é bem assim. A função e o mérito de escrever roteiros geralmente são coletivos -e bota coletivo nisso.
Tudo nasce de uma ideia. Alguns anos atrás, fui apresentado a Robert Wise. Ele estava dando uma entrevista a propósito de dois de seus sucessos, "The Sound of Music" e "West Side Story".
Perguntaram-lhe o que era mais importante num filme, e ele respondeu: "A ideia". O resto era resto. E contou uma historinha que revela como as coisas se passam num grande estúdio.
O produtor acorda e telefona para um banqueiro: "Você topa financiar um filme com Penélope Cruz no papel de carcereira de uma prisão de mulheres lésbicas? Uma delas é a Natalie Portman. O projeto vai custar US$ 120 milhões". O banqueiro topou.
Em seguida, o produtor liga para Penélope Cruz e Natalie Portman, que haviam pedido US$ 1 milhão para fazer qualquer filme. O produtor foi direto: "Vocês topam fazer um filme em que Penélope é carcereira e Natalia é uma das lésbicas encarceradas? Dois milhões para cada uma!".
As duas engasgaram, mas toparam. O produtor então telefona para seu assistente: "Tá tudo arranjado, já contratei Penélope Cruz e Natalie Portman por US$ 2 milhões cada uma, elas ficaram entusiasmadas. Agora, arranje um idiota que escreva esta história por US$ 5.000".
Pode parecer piada, mas as coisas funcionam assim mesmo. Um filme, uma produção teatral ou uma telenovela é um empreendimento econômico-cultural que exige um colegiado para tomar as decisões finais. Federico Fellini, que contagia com sua personalidade tudo o que faz, mesmo em seus filmes mais "pessoais" trabalhou com seis a oito roteiristas, entre os quais ele próprio.
Ingmar Bergman desde a mocidade montava a "A Flauta Mágica" nos teatros provincianos da Suécia. Sua estreia profissional foi em Estocolmo, no teatro Real, montando justamente a ópera de Mozart.
Depois foi fazer filmes, personalíssimos também, e já na virada dos 60 anos, decidiu filmar a ópera mozartiana. Está lá nos créditos do filme: são seis roteiristas (entre os quais o próprio Bergman) que trabalharam um roteiro velho de quase 200 anos, julgado em dois séculos como uma das mais fascinantes histórias do palco.
Pouco a pouco -é bom que se diga- começa a mudar essa mentalidade autoral. A telenovela -como o roteiro cinematográfico- é obra coletiva, de muitas cabeças e mãos, mais as mãos do que as cabeças.
Revi outro dia, na televisão, "The Big Sleep", um filmezinho meio idiota, com Humphrey Bogart no papel do detetive Marlowe. Os jornais noticiavam que o roteiro era de William Faulkner e fui conferir. Era. Só que havia mais três roteiristas ao lado de Faulkner. E, na certa, o que há de melhor no filme (o diálogo) não é de Faulkner: é exemplarmente antifaulkneriano.
O exemplo basta. William Faulkner foi um dos maiores romancistas do século 20, o maior fabulador do seu tempo. Proust, Joyce e Kafka foram mais espetaculares, mas a capacidade de criar, inventar a fábula (essência e função do romancista), teve nele a sua maior expressão.
Antes mesmo de ganhar o Nobel, Faulkner experimentou Hollywood, fez dois ou três roteiros que resultaram em filmes medíocres.
Na televisão, Faulkner teria de ser reescrito por cinco, seis roteiristas do ofício -gente humilde, que ganha pouco, mas pode transformar os versos do deputado Tiririca em sucesso e prêmio da Academia. 

segunda-feira, outubro 25, 2010

enrique chagoya



07/10/2010 - 14h57 - Folha.com

Mulher é presa após destruir obra de arte em museu dos EUA

Uma mulher foi presa após destruir uma obra de arte no Loveland Museum/Gallery, na cidade de Loveland no Estado do Colorado.

O jornal "The Denver Post" informou que Kathleen Folden está sob custódia da polícia por ter destruído a litografia "The Misadventures of Romantic Cannibals" (as desventuras dos românticos canibais), de Enrique Chagoya.

A obra lembra uma história em quadrinhos, com cenas de um personagem que pode ser interpretado como Jesus --em uma delas ele aparece recebendo sexo oral.

Por vários dias, o museu enfrentou protestos por exibir o trabalho, que também retrata outros personagens, imagens de pornografia mexicana e símbolos maias.

Segundo o jornal, um vereador da cidade se opôs à exibição da obra durante uma reunião, chamando-a de "obscenidade". Alguns católicos em Loveland também pediram para que o trabalho fosse retirado.

O artista, que também é professor de arte e história da arte na Universidade de Stanford, disse que a litografia era um comentário sobre as revelações de abusos contra crianças por padres.

domingo, outubro 10, 2010

urubus são retirados de obra da Bienal

a questão é duchampiana. se tudo é arte, nada mais é arte. os artistas fazem espetáculo, por isso urubus. deixa os animais em paz. o artista não sabe desenhar? o artista não sabe fotografar? o artista não sabe mais esculpir? tudo é apenas conceito? "computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro" já disse o músico pernambucano. bienal e obras assim fazem parte apenas da efêmera sociedade do espetáculo.
segue a notícia na Folha de São Paulo:
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08/10/2010 - 08h17
Urubus são retirados de obra da Bienal

Folha de São Paulo

Por ordem da Justiça, os três urubus-de-cabeça-amarela que faziam parte da obra "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, em exposição na Bienal, foram retirados nesta quinta-feira por volta da 0h.

As aves, motivo de polêmica e revolta de ambientalistas na abertura da Bienal, devem voar ainda nesta sexta-feira de volta ao Parque dos Falcões, em Sergipe, de onde vieram, acompanhadas do veterinário William dos Anjos.

Desde a última sexta-feira (1), quando o Ibama de São Paulo deu um prazo de cinco dias para que os animais fossem devolvidos a seu local de origem, pairava a dúvida se elas sairiam ou não.

A Fundação Bienal chegou a entrar, na segunda-feira (4), com uma ação na Justiça Federal solicitando a suspensão da notificação, mas o juiz federal substituto Eurico Zecchin Maiolino, da 13ª Vara Cível Federal, não acatou o pedido da entidade, com a justificativa de que "mesmo após a concessão de autorização, o Poder Público está autorizado a intervir e rever o ato administrativo diante da constatação de qualquer irregularidade".

sexta-feira, outubro 08, 2010

artur zmijewski


29ª BIENAL DE ARTES

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

No avião Tupolev que despencou há seis meses no meio de uma floresta russa estava o presidente da Polônia e uma comitiva de representantes do país. Ninguém sobreviveu, e logo a notícia chegou à capital Varsóvia. Todo o Estado desabou de chofre. No encalço da tragédia, um luto carregado de dúvidas sobre o futuro varreu o país. Artur Zmijewski, artista polonês agora na Bienal de São Paulo, fotografou tudo. São velas acesas na calçada, multidões empunhando bandeiras, marchas militares e desfiles fúnebres retratados no mais seco preto e branco. "Depois da catástrofe, só restou documentar tudo, tentar entender o acidente", conta Zmijewski à Folha. "É uma tragédia humana, pessoas morreram, o presidente, sua mulher e figuras-chave do poder, mas era necessário ver isso com olhos políticos." Isso quer dizer que, por trás da pele plástica dessa dor, Zmijewski tentou mostrar um tumulto latente, uma sombra que vaza para o primeiro
plano. Tratou de revelar o rastro político daquilo que deixou acéfalo o país. "Sempre segui as atividades políticas do povo em países diferentes", diz o artista. "Não preciso de nenhuma desculpa para fazer isso."
Nesse ponto, abre uma brecha para se distanciar da chamada arte política. Não esconde que sua obra está permeada de embates com o poder, mas repudia arte que esteja a serviço de uma ideologia. "Oscar Niemeyer é o maior exemplo disso, é um escravo dos políticos, sua obra só serve aos anseios deles", critica. "Arte vira uma só uma ferramenta se um artista se deixar ser usado. "Zmijewski parece querer mais distância de seu objeto de estudo. Mas se é fato que a política e os abalos nas estruturas de poder sempre
lastrearam sua obra, essa é a primeira vez que adota uma atitude mais passiva, deixando toda a ação passar diante de sua lente sem interferir. Foi diferente quando decidiu expurgar a dor das memórias do Holocausto.
Zmijewski não fotografou campos de concentração desativados, não revisitou locais de tragédia ou montes de sapatos, óculos e roupas que sobraram na soleira dos fornos. Num vídeo, convenceu um judeu sobrevivente da chacina a tatuar de novo o número que o identificava no antigo campo de concentração. Noutro trabalho, encenou um estranho jogo de pega-pega com homens e mulheres nus correndo dentro de câmaras de gás desativadas.

VÍTIMA E ALGOZ

"É fácil demais ficar do lado das vítimas, mas é também uma obrigação moral pensar como os algozes para entender o que aconteceu", diz Zmijewski. "Quando refaço a tatuagem, estou me colocando no lugar do algoz." Talvez porque a vítima sofre e o torturador fica no comando da ação, o artista preferiu assumir o lado mais autoral, de quem causa a dor. "Esse trauma nos causa angústia e sofrimento, mas não basta ver um
lugar", diz Zmijewski. "Minha ideia era mudar a situação, jogar com isso de forma mais ativa, não ser polido com a memória." Pela falta de polidez, foi alvo de suas críticas mais duras até hoje. Disseram que aquilo não era arte, e ele concordou. "Essa é a melhor reação, quando as pessoas percebem que não estão diante
de uma obra, mas sim da realidade", resume. "É o momento em que a arte se torna parte da realidade, algo que vem das emoções mais profundas."

quarta-feira, setembro 29, 2010

Ataques de pichadores reacendem debate na Bienal de SP


(imagem googlelizada do edifício da bienal e da marquise de niemeyer, parque do ibirapuera, sp)
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Folha de São Paulo
29/09/2010 - 07h31
Ataques de pichadores reacendem debate na Bienal de SP

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Na rua, uma regra não escrita entre pichadores é que um não pode passar por cima do trabalho do outro, "atropelar", no jargão do asfalto.

Mas o comportamento mudou dentro do pavilhão da Bienal, onde um dos integrantes do grupo Pixação SP, que integra a mostra, pichou no último sábado a instalação do artista Nuno Ramos.

"Todo 'pixo' é feito de forma ilegal, todo mundo se arrisca e por isso tem respeito", disse Djan Ivson, autor da ação. "Mas a gente não tem nada a ver com esses artistas, não tem relevância nenhuma o trabalho deles. Para nós, é indiferente rabiscar a obra."

Desde a abertura da exposição, ataques às peças de Ramos e da dupla Kboco e Roberto Loeb têm reacendido o debate em torno da pichação, levantando dúvidas sobre a tentativa de inclusão do estilo pelos curadores dessa 29ª edição da mostra.

Depois dos ataques à Bienal há dois anos, que resultaram na prisão de Caroline Pivetta, os curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias decidiram fazer um convite a representantes do gênero.

"São códigos diferentes, na rua eles estão entre eles e o respeito é mútuo ali", diz Dos Anjos. "Mas é essa diferença de regras que a gente está testando nessa Bienal, a gente assume o conflito."

Loeb, que teve seu trabalho pichado, vê no episódio um reflexo da desigualdade.

"Manifestações extremas desse tipo carregam a cor social do que está ocorrendo, a gente não está num país certinho", afirma. "Quem se alça a outros espaços é visto como um cara que diverge da comunidade, que saiu da turma, é uma briga de classes."

Sua análise parece valer tanto para pichadores quanto para seu parceiro na Bienal, o artista Kboco, que também começou na arte de rua. "Não faço arte para ganhar dinheiro", diz Kboco. "Já comprei briga com a elite."

Num gesto comedido, Nuno Ramos decidiu não prestar queixas contra Ivson, reforçando o que chama de "espaço para o diálogo" que deveria ser a Bienal. Ele também discorda da visão de luta de classes e de fricção entre os códigos de conduta.

"Não é possível fazer uma generalização, nem acho que isso tem a ver com a origem dele", afirma Ramos. "A classe alta também pode atacar."

Cildo Meireles, outro artista da Bienal, defendeu a atitude dos curadores, mas criticou os ataques. "Não compreenderam o espírito da coisa", diz o artista. "Isso é uma raiva mal resolvida, um ato de desespero que não podemos confundir com arte."

Há oito anos, uma obra de Lenora de Barros no Maria Antonia também foi pichada. Autores da ação mostraram até um projeto da intervenção à artista. Mas no caso da Bienal, ela diz não ver "nenhuma intenção artística".

"Eles vivem da transgressão", diz. "Mas ao mesmo tempo a situação acaba gerando figuras isoladas, que não respondem pelo grupo."

"Não acho que foi vacilo a Bienal ter chamado pichadores", opina a artista Adriana Varejão. "Mas a Bienal está virando uma plataforma de heróis da pichação, algo meio marqueiteiro. Estão querendo virar celebridade."

sexta-feira, maio 04, 2007

Bienal do Mercosul "enxuga" arte nacional - Fabio Cypriano - Folha de São Paulo

Mostra que será aberta em Porto Alegre em setembro tem mais artistas argentinos que brasileiros

FABIO CYPRIANO
ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE

O Mercosul, subitamente, cresceu de cinco para 23 países. Ao menos será assim na 6ª edição da Bienal do Mercosul, prevista para ser aberta no dia 1º de setembro, em Porto Alegre. Em relação à edição passada, a mostra tornou-se mais enxuta: diminui de 173 para 63 artistas. Uma das surpresas foi a quantidade de brasileiros, apenas nove, quando na edição passada foram 79. Essa presença massiva, que se repetia também nas edições anteriores, levou o curador a fazer uma "provocação", apresentando mais argentinos -serão dez- que brasileiros. Segundo Gabriel Pérez-Barreiro, curador da mostra, o novo perfil da Bienal foi uma orientação do presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Justo Werlang: "A idéia é organizar uma Bienal que parta do Mercosul, mas não se restrinja apenas aos países daqui. Nas últimas bienais, vários artistas já estavam se repetindo". O espanhol Pérez-Barreiro criou um modelo complexo de Bienal: conta com seis curadores adjuntos, entre eles o brasileiro Moacir dos Anjos, além de ter proposto uma sessão denominada Conversas, para a qual convidou nove artistas, sendo que cada um podia convidar outros dois e a curadoria indicava um terceiro. Com isso, cerca de 25% da exposição passou longe da decisão dos curadores. "Eu busquei questionar o papel do curador, pois essa não é uma bienal que quer dar uma visão única da arte contemporânea. Fico preocupado quando não há diversidade, quando o discurso é um só. Acho isso intolerante", disse o curador-geral em entrevista coletiva anteontem para apresentar a mostra. Por conta desse sistema, a lista da Bienal trouxe nomes um tanto inusitados no campo das artes visuais, como o cineasta Terrence Malick, que foi selecionado pelo artista Fernando Lopez Lage, para participar com o filme "Além da Linha Vermelha", ou então o músico Steve Reich, selecionado pelo brasileiro Waltercio Caldas. O curador concebeu a Bienal usando como "metáfora", como ele prefere se referir, ao invés de usar a palavra tema, o título do conto "A Terceira Margem do Rio", de Guimarães Rosa. "Creio que todo ato criativo gera um espaço que não existia antes, portanto ele não pode estar preso a polaridades do tipo formal versus conceitual. Essa Bienal é uma espécie de resposta à 1ª Bienal, que dividia a arte em categorias."
O jornalista Fabio Cypriano viajou a convite da Fundação Bienal do Mercosul

terça-feira, abril 17, 2007

Cerveny expõe "pequeno grande" mundo

Folha de São Paulo
Exposição individual no mezanino da Casa Triângulo reúne trabalhos feitos pelo artista nos últimos dez anos
GABRIELA LONGMAN
DA REPORTAGEM LOCAL

Em meio à onda do "vale qualquer coisa" que perpassa a arte contemporânea, a reflexão de Alex Cerveny é um pequeno respiro. Com desenhos, gravuras e pinturas que exibe a partir de hoje na galeria Triângulo, o artista paulistano apresenta seu mundo onírico, ora mágico, ora trágico, mas sempre detalhista, interessante, cheio de meandros. Os trabalhos apresentados -a maioria deles de pequenas dimensões- datam de seus últimos dez anos de produção. Embora o conjunto não seja tão impressionante quanto aquele apresentado na Estação Pinacoteca em agosto de 2005 (onde expôs cerca de 200 ilustrações), está mantida na pequena mostra a fina sensibilidade irônica que permeia a trajetória do artista. É assim com a dupla de gravuras "Gracias a la Vida" e "Gracias a la Muerte", desfilar de personagens, seres encantados e símbolos, com infinitas referências. É assim com "Cidades Satélites", obra de 1997 que recentemente voltou da galeria Ruta Correa, em Freiburg (Alemanha), e que, segundo o artista, "resume o espírito da exposição". É assim, finalmente, com a "La Adoración del Cubo Blanco", deliciosa sátira sobre o universo da arte. "Não consigo considerar trabalhos de dez anos atrás como "velhos". Nessa exposição mostro coisas que eu guardava e que pensei que nunca seriam expostas, nunca... Alguns trabalhos "secretos'", diverte-se Cerveny em rápida entrevista à Folha, jornal para o qual trabalhou entre 1998 e 2005, como ilustrador da coluna de Bárbara Gancia, ocupando o posto que um dia fora de Leonilson. Em texto no convite, o artista comenta a dimensão dos trabalhos expostos: "Os pequenos formatos revelam minha predileção para o conforto portátil, mas o espaço que me interessa aqui é o mental", escreve Cerveny, trazendo um pouco de ar para uma sociedade que cada vez mais se esquece de pensar.

Tony Camargo

Uma pena que todo esse universo esteja confinado apenas no mezanino da galeria. Na sala principal, a Triângulo expõe sua novidade, o jovem curitibano Tony Camargo. Destaque na mostra Rumos e no Panorama do MAM-SP 2005, o artista apresenta sua primeira incursão pela pintura depois de passagens pelo desenho, fotografia e objetos. Em sua primeira individual na galeria, Camargo expõe grandes telas com desenhos circulares -experimento cromático derivado de sua pesquisa prévia com arte digital.

ALEX CERVENY E TONY CAMARGO Quando: abertura hoje, das 20h às 23h; de ter. a sáb., das 11h às 19h; até 5/5 Onde: Casa Triângulo (r. Paes de Araujo, 77, Itaim, tel. 0/xx/11/3167-5621) Quanto: entrada franca