terça-feira, março 29, 2011

Poeira e pintura - Marcelo Coelho - FSP

O PIANISTA Claudio Arrau (1903-1991) acreditava que, para tocar bem um instrumento, o mais importante é estar com o corpo desimpedido. Entre a mente e os dedos, ele dizia, o fluxo deve ser o mais fácil possível, e a postura do músico precisa ser de total relaxamento. Essa ideia de fluidez, de ausência de obstáculos internos, anda me perseguindo. De outra coisa não falei nos artigos anteriores, sobre o rei gago do Oscar e sobre "Billy Budd", a novela de Herman Melville. Reencontro o mesmo tema numa obra completamente diferente. A pintura emana do intelecto. Se não se pinta com o punho livre, o resultado será uma pintura com falhas. Quem escreve isso é Shitao, príncipe de Jingjiang (1642-1707), um dos grandes mestres da pintura clássica chinesa. Ele continua. "O pincel corre à esquerda, à direita, em relevo, em profundidade, brusco e resoluto, interrompe-se abruptamente, alonga-se obliquamente, ora como a água, tomb ando para as profundezas, ora para o alto, como a chama, e tudo isso com naturalidade e sem o mínimo esforço." Se os movimentos do pincel imitam a água e o fogo, como diz Shitao, é porque, de certo modo, pintar "sem esforço" equivale ao ato de criar o mundo. O movimento do pincel não copia a forma externa dos objetos, mas refaz o "princípio ativo" que faz tudo surgir: florestas, bichos, mares, montanhas. Leio esses pensamentos, meio técnicos, meio místicos, no livro "As Anotações sobre Pintura do Monge Abóbora-Amarga", do belga Pierre Ryckmans, publicado agora no Brasil pela editora da Unicamp. Trata-se de uma tradução, coberta de muitos comentários, do tratado sobre pintura de Shitao. A edição brasileira, a cargo de Carlos Matuck e Giliane Ingratta, vem acompanhada de um "caderno de imagens", com reproduções de 20 obras célebres da pintura chinesa, entre elas "Atravessando a Torrente", "Bruma sobre a Minha Choupana" e "O Pescador sob a Falésia", do próprio Shitao. Este último quadro, com uma grande montanha feita de traços aguados de ocre e azul, não deixa de lembrar os estudos de Cézanne sobre a montanha Sainte-Victoire, pintados cerca de dois séculos depois. O jogo entre a água e as montanhas é tratado num dos mais belos capítulos do livro. Shitao começa distinguindo uma coisa e outra: "O Mar possui a rebentação imensa, a Montanha possui o recolhimento latente". Um e outro, contudo, podem confundir-se. "Com a superposição de seus cumes, a sucessão de suas falésias, seus vapores, seus orvalhos e suas brumas, a Montanha faz pensar nas arrebentações, nos sorvedouros e nas golfadas do Mar." Por sua vez, o Mar, "com suas profundezas, seu riso selvagem, suas miragens, baleias que saltam e dragões que se erguem", apropria-se das qualidades da Montanha. Poderia ser Proust falando da pintura de Elstir, personagem que se diz baseada em Claude Monet; o gênio desse art ista, lemos na "Busca do Tempo Perdido", estava em tratar uma planície com o vocabulário do oceano, ou as nuvens como se fossem de matéria vegetal... Sinais, diria Shitao, de uma unidade básica dentro da multiplicidade dos seres. Na percepção dessa unidade, e não em algum truque técnico, estaria o grande segredo do pintor. Que é também, claro, uma espécie de místico. Desde as primeiras páginas desse tratado teórico, trata-se de buscar o "Único Traço de Pincel", aquela unidade a partir da qual tudo deriva. Esse "traço único de pincel" pode ser entendido, mais prosaicamente, como o impulso criador que dá ordem e harmonia à obra, que faz da obra algo superior a uma colagem de pedaços separados, feitos individualmente. Mas é também, como sabe quem já xeretou o I Ching, um risco básico que, fragmentado e reordenado em inúmeras combinações, dá conta de todas as transformações. O Céu, cujas qualidades de "virtude", "silêncio ", "etiqueta" se revelam apenas plenamente na Montanha, é uma das várias formas que caberá ao pintor unificar. Desde que ele aperfeiçoe ao máximo suas capacidades de absorção, de visão do todo. Para isso, diz um dos capítulos finais do livro, precisamos ficar "longe da poeira", de tudo aquilo que nos turva o coração. Desintoxicar-se, esvaziar-se, "deixar as coisas seguirem as trevas das coisas e a poeira comprometer-se com a poeira": preceitos que cabem numa Quarta-Feira de Cinzas.